quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Os deslocados

Foi num relance. Quando dei por mim já havia entrado no bar junto de meu pai e, mais, já haviam pousado dois copos sobre a mesa. Entre um e outro, uma garrafa de cerveja. Olhei em torno para certificar-me de que um deles era mesmo meu e, constatando-o, tratei de protestar. Em vão. Empurrei em goles amargos a bebida amarela.

Do outro lado do balcão, como atendente, o filho do dono do botequim. Sozinho na tarde quente daquele domingo, o rapaz sorria, também com um tom amarelo, aos gracejos que temperavam a conversa dos clientes e habitués do recinto.

Olho bem para nosso mal-estar, matizado de amarelo. Olho para meu pai, presente, e penso no pai do balconista, ausente por algumas horas. Ou alguns minutos, não importa. Olho para a fumaça de cigarros que nos sufoca e, de repente, do fundo da memória uma voz me sopra: os deslocados.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Outro mundo foi possível?

No dia em que se comemora o "descobrimento" da América por Cristóvão Colombo, ato fundador da nossa história desde uma perspectiva panamericana, venho trazer um comentário sobre um trabalho de ficção que nos apresenta um exercício de história contra-factual: e se a Europa tivesse sido descoberta pelos índios americanos?

Esse exercício é o leitmotiv de El conquistador, do escritor argentino Federico Andahazi (capa ao lado). A obra se apresenta desde o início como um exercício de imaginação, convidando o leitor a deixar-se levar pela crônica de tempos em que o mundo teve a oportunidade única de ser outro ou, talvez, de ver invertidos os papéis de vencedores e vencidos:

"Lo que sigue es la crónica de los tiempos en que el mundo tuvo la oportunidad única de ser otro. Entonces, quizá no hubiesen reinado la iniquidad, la saña, la humillación y el exterminio. O tal vez sólo se hubiesen invertido los papeles entre vencedores y vencidos. Pero eso ya no tiene importancia." (p. 13) [1]

O estatuto de ficção da obra se estabelece numa ambiência totalmente ambígua, porque a própria voz narrativa que nos convida à leitura dessa crônica também explicita que nada disso é importante frente a uma realidade histórica conhecida e que vai de encontro à possibilidade representada pelo relato. 


Nas páginas iniciais, o leitor é apresentado ao Império Mexica (Asteca) e a suas práticas culturais. É um momento em que a imaginação do autor se alia aos documentos da época da Conquista (vejam-se as cartas de Hernán Cortés) e prepara o espaço da narrativa para apresentar-nos o protagonista, Quetza. O jovem teria sido salvo por Tepec, velho membro do conselho do Império, no momento em que seria sacrificado aos deuses. Desde então, é perseguido pelo sacerdote que conduzia o ritual e, por conta disso, parte numa viagem que se acreditava impossível: a travessia do oceano.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Cumplir años... 2010 - 2011

Há um ano atrás, espantado, eu sentia frio à luz do meio dia.
E, deslumbrado, eu andava por ruas nunca dantes atravessadas...

Há um ano atrás eu tomava "unos mates", ou comia "un asado"
com outra gente, com meus amigos de Villa María.

Há um ano atrás, surpreendido, passei meu aniversário
com outra gente, com meus amigos de Villa María,
comendo pizzas numa noite animada.

Há fotos que o provam (e uma saudade danada).






Nesta nova primavera, na minha não tão nova Juiz de Fora
não há espanto, nem deslumbre,
pois conheço todas as ruas, todas as caras...

Mas também houve reuniões animadas:
almoço em casa com a família,
pizzas com os amigos "de longa data".

Meus amigos de Villa María,
longe daqui por coisas da Geografia,
estes me cumprimentaram pela rede.

Há fotos que o provam,
e também os recados no "face".
Apesar de tudo, há sempre a saudade - que permanece.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sobre estes textos - Sobre estos textos - About these texts

Como diz Eduardo Galeano em O livro dos abraços: "As coisas costumam suceder no momento em que as contamos." Por isso, mesmo tendo voltado ao Brasil, seguirei atualizando este blog com relatos da minha viagem à Argentina. Ao contar sobre a viagem, de alguma maneira, a estarei vivendo outra vez e quem ler meus relatos também.

Como dice Eduardo Galeano en El libro de los abrazos: "Las cosas suelen suceder en el momento en el que las contamos." Por eso, aún después de haber vuelto a Brasil, seguiré actualizando este blog con relatos de mi viaje a Argentina. Al contar sobre mi viaje, de alguna manera, lo estaré viviendo otra vez y así quienes lean mis relatos también.

As Eduardo Galeano said in The book of embraces: "Things usually happen in the moment they are told." Therefore, even after having returned to Brasil, I will continue updating this blog with reports of my trip to Argentina. While telling about my trip, somehow, I will be making it again, and so will do those who read my stories too.

sábado, 23 de abril de 2011

Uma surpresa agradável e um certo peso na consciência


Noite de Sexta-Feira Santa. Na TV ligada poucas opções de programas que pudessem chamar a minha atenção. Nem mesmo as novelas, que às vezes vejo para ter o que criticar. Elas já tinham acabado. Foi então que "passeando" entre um canal e outro topei com Eva Wilma recitando um texto e parei, curioso, para ver do que se tratava. Pelas fotos que compunham o pano de fundo do estúdio, suspeitei ser algo relacionado à Lygia Fagundes Telles. E acertei.

Esta a surpresa de que falo no título. O programa (vim a saber que era uma reprise) me surpreendeu por vários motivos. Um deles o fato de escapar ao óbvio desfile de personagens bíblicos e/ou figuras católicas que saturam a programação destes dias. Outro motivo: o fato de mostrarem um pouco a vida e a obra de uma autora que, na minha percepção, a mídia e o sistema editorial trataram de sepultar em vida. O excesso de publicidade em torno, por exemplo, de Clarice Lispector, que aliás foi amiga de Lygia, acaba deixando na sombra não só a obra desta última, mas a de outras autoras brasileiras.

E foi então que veio o "peso na consciência". De que vale todo esse meu discurso contra o sistema se, ao fim e ao cabo, nem eu li Lygia Fagundes Telles? Eu, estudante de Letras, também ignoro a existência dos livros de Lygia e mesmo se vier a lê-los depois de ter visto o programa, já não será a mesma coisa que uma "descoberta", um "encontro". Claro que há o prazer da leitura, o desejo e a necessidade de se ler aquilo de que se gosta, mas, ainda assim, é cruel deixar certos autores de lado. É cruel não gostar sem sequer ter tentado. Por isso, mesmo sabendo que não será a mesma coisa, vou incluir algum livro da Lygia entre as minhas próximas leituras.

Distintas Marias, a mesma folia...

Comento com atraso e por isso serei breve: não dá para concordar com a aprovação dada pelo governo, através da Lei Rouanet, para os projetos que serão tocados por Maria Bethânia e Maria Rita. Argumentos favoráveis e contrários já foram apontados por outras pessoas. Aqui, estou só marcando posição. Acho que elas poderiam tocar com recursos próprios.

No caso específico de Maria Rita, que, depois de anos de resistência (e mais recentemente de acomodação a um repertório "sambístico" de fácil/forte apelo popular), passará a interpretar as músicas de sua mãe, só cabe dizer uma coisa: redescobrir Elis também envolve redescobrir uma ética profissional e uma verdade humana que hoje passa longe do show business brasileiro.

Como eu disse, serei breve porque meu comentário está atrasado. Mas não tenho medo de ser criticado ou taxado de anacrônico ou desatualizado. Por sorte, os tempos já não são tão bicudos e não há risco (aparente) de acabar ficando "três dias num terreno abandonado ostentando onze fitas de Ogum", morto por "engano, vingança ou cortesia".

sábado, 29 de janeiro de 2011

Virei um deles?

Sobre cortes de cabelo já escrevi aqui neste blog em outra ocasião, mas o destino me pregou uma boa peça, de modo que preciso voltar ao tema. Na verdade, preciso até voltar no tempo, porque o caso se passou na véspera das festividades de Ano Novo, as quais acabaram me impedindo de escrever no momento em que o tema estava "fresco".

Fica a síntese: no dia 31/12 saí para comprar os materiais da ceia com meus pais. Após uma temporada longe de casa, fiquei andando uns bons dias colado com eles. Meu pai insistia para que eu cortasse os cabelos, grandes desde a volta ao Brasil e eu me recusava terminantemente a fazer isso. O problema é que as minhas negativas pouco ou nada puderam contra a autoridade dele e, de quebra, a minha subserviência filial. Cortei o cabelo.

O problema foi que no meio de tanta contrariedade e depois de enfrentar fila no salão cheio, acabei não notando que o barbeiro fez uma "barbeiragem" no meu cabelo, deixando-o com uns desenhos que aproximavam meu visual do de meus primos, tão destacadamente distinto, ligado a uma identidade da periferia (sem preconceitos) que eu não consigo associar com a minha pessoa.

Sem embargo, estava eu com um cabelo chique-modernoso e sem saber como lidar com a situação.  Mas, nada como um bom encontro de família para colocar as coisas no seu devido lugar.  Os primos dos cabelos diferentes vieram para a ceia de final de ano e, para minha surpresa, o corte desta temporada mudou. 

E com isso toda a minha preocupação acabou se mostrando pouco eficiente: meu corte poderia até ter sido chique em seu momento, mas de moderno e atual não tinha nada. Sempre um passo atrás da "rapaziada", tive de contentar-me com a situação e sorrir.

Quatro?

Hoje à tarde sentei na sala de casa para ver as sambistas no Caldeirão do Huck. Na verdade, estava toda a família e nós todos tivemos de assistir, antes, a uma (desinteressante) apresentação daquela que possivelmente será a música mais tocada nestes dias de fevereiro e março, quando o país só pensa nos festejos de Momo: Tchubirabirom.

O que mais me espantou não foi a apelação para o corpo - que aliás serve para ocultar não a pobreza, mas antes a inexistência de uma letra -, também não foi a explicação sem pé nem cabeça de que essa palavra que me recuso a escrever de novo significa: "tremendo corpo". Não.

Meu corpo ficou foi tremendo de susto e indignação ao ver os créditos da referida composição (?): quatro autores. Eram precisos tantos para produzir algo tão ruim???