quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Outro mundo foi possível?

No dia em que se comemora o "descobrimento" da América por Cristóvão Colombo, ato fundador da nossa história desde uma perspectiva panamericana, venho trazer um comentário sobre um trabalho de ficção que nos apresenta um exercício de história contra-factual: e se a Europa tivesse sido descoberta pelos índios americanos?

Esse exercício é o leitmotiv de El conquistador, do escritor argentino Federico Andahazi (capa ao lado). A obra se apresenta desde o início como um exercício de imaginação, convidando o leitor a deixar-se levar pela crônica de tempos em que o mundo teve a oportunidade única de ser outro ou, talvez, de ver invertidos os papéis de vencedores e vencidos:

"Lo que sigue es la crónica de los tiempos en que el mundo tuvo la oportunidad única de ser otro. Entonces, quizá no hubiesen reinado la iniquidad, la saña, la humillación y el exterminio. O tal vez sólo se hubiesen invertido los papeles entre vencedores y vencidos. Pero eso ya no tiene importancia." (p. 13) [1]

O estatuto de ficção da obra se estabelece numa ambiência totalmente ambígua, porque a própria voz narrativa que nos convida à leitura dessa crônica também explicita que nada disso é importante frente a uma realidade histórica conhecida e que vai de encontro à possibilidade representada pelo relato. 


Nas páginas iniciais, o leitor é apresentado ao Império Mexica (Asteca) e a suas práticas culturais. É um momento em que a imaginação do autor se alia aos documentos da época da Conquista (vejam-se as cartas de Hernán Cortés) e prepara o espaço da narrativa para apresentar-nos o protagonista, Quetza. O jovem teria sido salvo por Tepec, velho membro do conselho do Império, no momento em que seria sacrificado aos deuses. Desde então, é perseguido pelo sacerdote que conduzia o ritual e, por conta disso, parte numa viagem que se acreditava impossível: a travessia do oceano.


Na segunda parte da obra, Colombo substitui Cortés na função de substrato textual. Do mesmo modo que o navegador genovês, o jovem almirante indígena mantém um diário de viagem que dá conta de nos mostrar as peripécias e as aleluias da viagem até a Europa, naquela época um continente recém saído da Idade Média.


A terceira e última parte da obra narra as aventuras de Quetza na Europa e suas impressões sobre o continente recém "descoberto". O choque entre duas culturas se repete e uma serve de parâmetro para a avaliação da outra. Se Cortés pensava a América em comparação com sua Espanha, Quetza pensa Europa em comparação com sua Tenochtitlán natal. Também em consonância com a atitude dos primeiros conquistadores, Quetza anuncia em sua língua (desconhecida pelos nativos) a tomada das terras.

Surpreso diante do cavalo, da pólvora e da roda (elementos que foram importantes para o triunfo dos europeus), Quetza solicita exemplares de tudo isso como presentes. Sabendo que também aqueles povos poderiam a qualquer momento cruzar o oceano, a estratégia do rapaz era lutar usando os mesmos recursos que eles. Na verdade, Quetza pretendia fazer uma segunda viagem à Europa, com mais homens e melhor armado.

Apesar desses planos, é o mesmo estrategista quem escreve entre as anotações de viagem um conselho ao seu imperador, chamando a atenção para a necessidade de pacificar os europeus: 

Las ciudades del Nuevo Mundo están rodeadas de murallas para evitar ser tomadas por asalto. Es éste un verdadero problema para cualquier ejército (...) Pero lo que deberá comprender el tlatoani cuando lidere esta campaña es que un pueblo no se conquista sólo derribando muros y tomando ciudades. No es fácil trasponer murallas, pero más difícil es penetrar en los corazones de quienes viven tras ellas. Y en este punto debe radicar el plan de conquista. Arduo es asaltar una ciudad, pero mucho más lo es aún ganar la voluntad de sus pobladores. (...) Estas tierras están arrasadas por las guerras constantes, las divisiones, las matanzas, las persecuciones y los sacrificios. Nuestros ejércitos deberían traer la paz y no más lucha y destrucción. Será en el pacífico nombre de Quetzacóatl como se conquiste el corazón de estos salvajes y no en el del Huitzilopotchtli, Señor de la Guerra y el Sacrificio, que ya mucho tienen de esto último.” (pp. 203-204, grifo meu).

Não ignoremos que esse discurso traz ecos das "cartas de intenções" dos religiosos que aportaram no Novo Mundo. Este fato, somado aos outros substratos textuais do relato, nos leva a pensar (talvez como fatalistas ou simplistas) que se a Conquista tivesse ocorrido em sentido contrário somente se teriam invertido os papéis de vencedores e vencidos.


A realidade conhecida de todos, porém, leva a narrativa a um "beco sem saída". Ainda que possamos imaginar os efeitos de uma inversão no sentido da dominação, sabemos que isso não ocorreu. Por esta razão, o navio de Quetza afunda na viagem de regresso, sepultando no fundo do mar todas as novidades trazidas do outro lado do Atlântico. O protagonista, conquistador sem conquistados, termina seus dias à espera da "verdadeira" Conquista, que trouxe à América morte e destruição:

Quetza solía encaramarse sobre los techos, en el lugar más alto (...)” y “con los ojos abiertos, sin parpadear, esperaba el momento en que, desde el horizonte, surgieran los mástiles de las naves del almirante de la reina, trayendo consigo los dioses de la muerte y la destrucción”. (última página)


Ao final da leitura pode-se ficar com duas impressões: a primeira (e mais fácil) é a de que realmente era inevitável que as coisas ocorressem com derramamento de sangue ou a segunda, que é a de que, apesar dessa inevitabilidade, o encontro entre duas culturas nos deixou um legado que ainda hoje precisa ser pensado, refletido e trabalhado.

[1] As citações foram extraídas de Andahazi, Federico. El conquistador. 1ª ed. Buenos Aires: Planeta, 2006. Os números entre parênteses indicam a página onde está o texto citado. Desconheço se a obra se encontra traduzida ao português e, infelizmente, não me encontro em condições de traduzir.

2 comentários:

  1. Que indicação ótima, Ailton! Eu preciso lê-lo para confrontar com o Todorov em A Conquista da América. É uma obra feita por um europeu relatando esse encontro de culturas, visto sob o ponto de vista do conquistado. Todorov me parece que não é histpriador e sim um linguista ou antropólogo. Essa sua resenha é um achado para mim. obrigado e um grande abraço.

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  2. Olá, Cacá. Quanto tempo!

    Fico feliz por minha resenha ter sido útil para você. Infelizmente não tenho o livro do Andahazi. Li durante o intercâmbio, mas não comprei... o do Todorov eu tenho e realmente é muito bom.

    Abraços e obrigado pela sua leitura!

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