sexta-feira, 5 de junho de 2009

Irritação

Como dizer às pessoas que nós não queremos que elas mexam no nosso serviço?! Essa tem sido a minha dúvida mais freqüente durante essa semana. Claro que eu poderia simplesmente chegar e dizer. Mas não quero ser grosseiro e dar mais motivos a que me critiquem. Ainda que as pessoas não percebam em si nenhum defeito e sua crítica seja somente motivada pelo desejo de ferir o ego do superior hierárquico, como a querer com isso desqualificar a pessoa que atingiu uma posição de comando. Qualquer que ela seja.

O problema de se assumir um posto minimamente relevante em um escritório é exatamente esse: fica-se com vários papéis acumulados em cima da mesa, resolvendo pendências alheias que dependem (dependem???) do seu aval e enquanto isso os "colegas" - que aguardam que você termine de liberar o serviço deles - ficam sentados a dar palpites sobre quando e como fazer o seu serviço.

O perigo, porém, desse eterno remoer sentimentos é o de um dia, hoje por exemplo, eu acabar me descontrolando e enderaçando críticas reais que, sei, vão ser muito piores que os comentários que eu escuto. Aí será tarde.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Uma reflexão sobre “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis

            O conto A Igreja do Diabo, coligido por Machado de Assis na coletânea “Histórias sem data”, de 1884, ainda hoje parece confirmar a afirmação do filósofo: “o homem é a medida de todas as coisas”.
            O próprio Machado diz, na advertência da obra, que a maioria dos trabalhos nela reunidos tem data, mas que a suposição de que seu objetivo seja “definir estas páginas como tratando, em substância, de coisas que não são especialmente do dia, ou de um certo dia” permite entender o título que ele atribui. Ou seja, o título da coletânea se justifica com o fato de tratar-se de histórias sobre coisas de todos os tempos. E que há de mais antigo no mundo, porém ainda atual, que o duelo entre o Bem e o Mal?
            No conto em questão, o Diabo considera a possibilidade de fundar uma Igreja que combata todas as outras doutrinas existentes, partindo da premissa de que “há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo”.  Decidido, ele procura Deus e comunica desafiadoramente seu objetivo.
            Uma vez estabelecida, a nova igreja arrebata todos os fiéis de suas rivais com uma pregação que os incita à prática dos chamados pecados capitais: gula, inveja, avareza... O grande problema é que, depois de algum tempo, a quantidade de adeptos entra a diminuir.
            Sem “refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado”; Lúcifer retorna à presença do Criador para questioná-lo sobre o porquê desse acontecimento. O Altíssimo calmamente lhe explica que a “eterna contradição humana” é a responsável pelo fenômeno.
            Esta contradição costuma ser explorada com freqüência nos escritos machadianos, como no conto Entre santos, publicado no volume “Várias Histórias”. Neste outro texto, um dos santos (Francisco de Sales) afirma: “Os homens não são piores do que eram em outros séculos; descontemos o que há neles ruim, e ficará muita cousa boa”.
            Quer nos parecer que esta relativização das certezas, tão destoante do cientificismo do século XIX, esta consideração da volubilidade do caráter do ser humano, perceptível nesses dois textos em que o autor se apropria de personagens da seara da religião, constitui ponto de particular interesse mesmo agora.
         Neste início de século XXI, quando o fundamentalismo religioso e ideológico quase sempre nos encaminha para a intolerância e a luta armada, talvez seja oportuno reler Machado de Assis. Depois de ler a obra do Bruxo do Cosme Velho nos fica a pergunta: por que esperar tanto do ser humano?           

"Força da Imaginação"

Conversando hoje com uma amiga fiquei sabendo - com pesar - que a cefetização do Colégio Técnico Universitário incluiu o estabelecimento na triste categoria de comércio de diplomas. Ainda que a palavra comércio aqui não se aplique com exatidão devido tratar-se de escola pública.

Mas acredito que por se tratar de espaço público a metáfora do sistema bancário de ensino se faz muito mais cruel.

Essas reclamações se fundam no fato de o CTU estar oferecendo o curso técnico em Enfermagem à distância no período noturno, com aulas presenciais uma vez por semana. Perguntaram para um dos alunos como ele faz para, por exemplo, punsionar a veia de um paciente. O rapaz explicou que os alunos visualizam pela internet e fazem alguns cliques. Pronto. Simples assim.

Eis o que eu chamo de maravilhosa "força da imaginação".

Créditos da imagem: Ilustração referente ao desenho animado "O fantástico mundo de Bobby", exibido alguns anos atrás pelo SBT. Fonte aqui: http://shopping.banner-link.com.br/loja/loja.asp?loja_id=537&Pedido_Id=&produto_id=60350

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Fala roubada

Ainda na esteira das coisas que me incomodam nos trabalhos em grupo, está, além do roubo de minha vitalidade, o roubo de minha fala programada!!!

Funciona assim: faz-se um esboço de uma apresentação, fala-se (ou escreve-se) um roteiro básico do que cada um dos membros do grupo pode e quer preparar e na reunião seguinte (via de regra marcada em dia, hora e local que impede meu comparecimento ou favorece meu atraso...); decidem que "Fulana de Tal" terá dificuldade em fazer a parte dela e, logo, eu preciso ceder a minha que é mais fácil. Como se eu quisesse falar de coisas fáceis. Como se a escolha não tivesse a intenção de aprofundar e levar além as discussões sobre, por exemplo, o contexto histórico de uma obra literária!!!

Agora decidiram que eu não gosto de "abrir" apresentações. Logo, preciso de novo ceder a minha idéia para outra pessoa e me empenhar (no meu tempo que é escasso, cheio de compromissos...) numa outra pesquisa, mais ampla, mais profunda sobre outro assunto que nem passava pela minha cabeça desenvolver. Complicado, não?!