Num arroubo saudosista (que, supõe-se, devia ser algo menos recorrente num jovem de 23 anos) me dei de presente um DVD duplo - na verdade um único disco com filmes nas duas faces - que contém um filme que marcou a minha infância não tão distante: "A história sem fim".Trata-se da história de um garotinho chamado Bastian, que é órfão de mãe e parece não superar essa perda. A relação com o pai também não parece das melhores. Possivelmente porque também o adulto se ressente da perda... Tudo isso nos é informado nas primeiras cenas do filme, antes do menino se dirigir á escola. No caminho, três garotos o abordam e, sem dinheiro para dar a eles, Bastian acaba numa lata de lixo. Fica sugerido que não é a primeira vez que isso ocorre.
Minutos depois, fugindo da perseguição desses mesmos garotos, ele penetra numa livraria. Lá topa com um livro mágico e daí em diante é que tem começo verdadeiramente a "História sem Fim", na qual os personagens de Fantasia correm perigo porque as crianças estão deixando de acreditar nelas. Claro que o filme tem um fim. Assim como esse texto deveria ter uma finalidade que está ficando oculta por trás do resumo do filme.
O caso é que não revi o filme sozinho. Minha irmã caçula, criança aí com seus dez anos, estava na sala dividindo o espaço comigo. Certamente curiosa por descobrir o que eu, irmão mais velho, via quando tinha a idade dela. Ela viu e não gostou. Disse que dava claramente para ver que eram bonecos e animações muito simples.
Sinal desses tempos de imaginação colonizada pelas animações da Pixar, o comentário dela teve um efeito devastador sobre mim. Na verdade eu esperava que a qualquer momento o filme parasse de rodar e os personagens fossem morrendo um a um.
A explicação: nesses tempos em que as crianças não mais precisam se dar ao trabalho de estabelecer um pacto de representação com o que quer que esteja passando na tela - elas que pretendem saber que tudo é falso e ilusório - não há mais espaço para Fantasia. Não. A menos que troquemos o nome de Bastian pelo de Dom Quixote. Só mesmo com muito idealismo para continuar acreditando na beleza dessas histórias, apesar de todos os contratempos e dos contraditos.