domingo, 31 de janeiro de 2010

Quixotadas

Entre este janeiro que hoje termina e o março em que as chuvas encerram o verão, eu preciso tomar cuidar para não ter uma overdose de Dom Quixote.

Hoje à tarde, estive conferindo Dom Chicote Mula Manca, montagem da Isto Cia. Teatral do texto de Oscar Von Pfuhl. Excelente adaptação a do autor, que prioriza o aspecto "justiceiro" do herói e, de quebra, faz refletir sobre as espertezas dos governantes. Excelente também a atuação dos atores, que já tive o cuidado de elogiar num e-mail à parte.

Agora em fevereiro, tenho um encontro marcado com o herói da Mancha no dia 20, quando o grupo de leituras de que participo (o Palimpsestos) discutirá a obra de Cervantes. Antes um pouco, no domingo de Carnaval, vou gastar um tempinho na frente da TV para conferir o desfile da União da Ilha, cuja permanência no Grupo Especial dos festejos cariocas, é tão ilusória quanto os gigantes que são moinhos. Ou são moinhos que são gigantes?

Por fim, em março, temos o segundo tempo das discussões palimpsestícas. Agora é ver se eu tenho pique para tudo isso e mais um pouco, né? Porque passados os festejos de Momo, a vida tem de começar a andar neste Brasil!!!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Haiti é aqui?

Um comentário que tenho ouvido com relativa freqüência a respeito da ajuda brasileira ao Haiti: "o governo tem que ajudar os brasileiros, tem nordestino morrendo de sede e eles querem aparecer ajudando lá fora." Discordo.

Tudo bem que nós temos, sim, nossos problemas e nossos muitos Haitis, como proclamava outro dia um irritado Datena na TV Bandeirantes, mas isso não nos exime do dever HUMANO de exercer a solidariedade também com esse povo haitiano que tanto tem sofrido com esses acontecimentos.

PS: a cobertura excessiva da mídia, apesar de nos manter "informados", não traz nenhuma vantagem à população que eles filmam comendo restos e correndo entre ruas devastadas e mortos insepultos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

"Aconteça o que aconteça"

Final de ano é uma época em que a programação de todos os canais se torna previsível: filminhos infantis em que a idéia do espírito de Natal é sempre veiculada como se pudesse servir de meia-culpa aos excessos consumistas ou, então, filmes sobre a vida de Jesus e de todos os santos possíveis e imagináveis. Pouca coisa escapa do óbvio. O SBT, porém, contrariou todas as expectativas. Para pior.

O desapontamento começou na quarta-feira, 23. Prometeram que contra o Roberto (Carlos) - que há mais de 30 anos constrói sua imagem de REI com especiais na Rede Globo - iriam contrapor outro Roberto (Justus; apresentador, empresário e agora promovido à categoria de cantor). Ligo a TV e eis que vejo o Justus cantando um repertório composto basicamente por músicas estrangeiras (que, sinceramente, prefiro ouvir com os artistas que as gravaram originalmente) e entrecortando as apresentações com elogios rasgados do seu professor aos seus graves e elogios (comprados?) que artistas da estatura de Agnaldo Rayol faziam ao seu pretenso talento. Desisti de acompanhar até o final.

Também desisti de assistir até o final o "Especial Maisa". O desapontamento começou logo na primeira música em que o autor, Edu Tedeschi, quebrou completamente a lógica dos ditados populares para forçar a rima. Assim, aparecia na canção que "aconteça o que aconteça" (quando o esperado seria "aconteça o que acontecer") "falo tudo que vem à cabeça". A música, além de ser um retrato da menina (menina?) que a interpreta é também o sinal dos tempos em que estamos vivendo.

Aconteça o que aconteça, não confie demasiado na programação da televisão no Brasil.

Mancadas e milagres

Ontem, 24 de dezembro, véspera de Natal, me acidentei em casa. Trabalhei durante um ano e meio em indústrias e nunca me aconteceu nada grave. No entanto, aqui em casa que é um local aparentemente inofensivo, eu quase me ceguei.

É que eu estava colocando no lugar as dobradiças de um guarda-roupa quando a chave de fenda escapou do parafuso e acertou meu olho. Foi uma dor lancinante e até pensei por um minuto que tinha perdido a visão, enquanto lavava o sangue dos olhos.

Milagrosamente, porém, não aconteceu nada além de um arranhão. Tanto que aqui estou escrevendo... Quer dizer, no meu modo de ver foi um milagre. Meu pai, homem nervoso por natureza, apenas me disse: "Como você me dá uma mancada dessas de deixar a chave entrar no seu olho?" Diante de tão díspares pontos de vista, comecei a esboçar um poema:

Quase

Estava tudo em seu lugar determinado:
o parafuso no seu curso, a chave na fenda.
e minha mão no cabo.

Mas, num movimento desajeitado,
forçou-se um tal desvio
que depois dele foi tudo dor e desvario.

Corro a lavar-me, com medo de estar cego
lavo-me, desesperado, e, por sorte, ainda enxergo.
Me encho de um regozijo, me alegro.

Mas isto dura apenas um momento,
até que ouço que a culpa é minha,
por descuidado que sou e desatento.