quinta-feira, 9 de abril de 2009

Estranhos sinais

Normalmente, quando se quer prever se um dia será bom ou ruim, verifica-se com que pé se levantou da cama. O caso é que, para sair da minha, eu preciso forçosamente usar o direito: o lado esquerdo da cama é colado à parede.

Preciso portanto de outros indícios mais adequados à minha realidade. Mas quais seriam eles? Os sonhos (que não tenho)? Um pio da coruja que (in)existe sobre meu telhado? Um ventinho mais frio nessa passagem de março a abril? Talvez um gato preto? Quem sabe a cara amarrada da gerente?

Nada disso. Outro dia eu passei pela rua e, ao me ver, um senhor se benzeu. Isso bastou como sinal definitivo de mau agouro. O que será que esse velhinho viu em mim, comigo ou para além de minha pequena compreensão?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Final de tarde

"Final de tarde" é um poema engavetado que fala de amores. Amores impossíveis, mas por isso mesmo poetizados. E postos em verso por alguém que diz não gostar de suas próprias poesias. O problema é que quando a gente volta de uma viagem com ânimo renovado, precisa publicar alguma coisa. Nessa hora é que se desenterram os guardados. Ei-lo:


O céu cinzento de chuva;
eu na rua aguardando
uma condução que não chega.
Não chega nunca.

Quando finalmente ela vem,
para minha total tristeza,
te aproximas também.

Está posto o dilema: ir ou ficar?
Esperar-te ou fugir? Que devo eu fazer?

Talvez eu devesse me deter,
para dizer-te quão profundamente o desejo me queima.
Contar-te sobre esse incêndio
que, apesar de tudo, segue me maltratando.

Talvez eu devesse dizer
o quanto me sinto triste
por conta da enorme saudade
e da insuportável distância.

Talvez...
Mas minhas palavras ficaram guardadas.
Ficaram presas no reino do impossível porque
Pela mão trazes uma companhia.

A esta visão, perdi a minha tão grande vontade de chegar a ti.
Foi a prudência, o clima ou o medo quem me fez embarcar e partir?!

Viajando de ônibus...

Nessa linguagem confusa em que a palavra hoje pode querer dizer ontem por causa do sono, nessa linguagem confusa quero me expressar sobre viagens.

É que viajar no Brasil significa, quase sempre, embarcar num ônibus. Exceto quando se tem como ponto de partida e/ou chegada a região amazônica: lá só é possível se mover em barcos ou a nado. Outra exceção que me vem à mente seriam os casos em que o destino (ou a origem) é o sertão nordestino: nesse caso só se vai ou volta em pau-de-arara. Desnecessário dizer que, pelas dimensões continentais do território, o ideal seria contarmos com trens e pontes aéreas disponíveis. Entendam-me: o ideal. A realidade, infelizmente, é bem distinta e - parafraseando a Fátima Guedes - também não rima.

Pois bem, falei e falei sem nada dizer da viagem que eu empreendi esse final de semana para o Solo Sagrado da Igreja Messiânica.

Essas viagens constituem um tipo de deslocamento pendular que agrega pessoas num templo nos dias de culto, como hoje, e depois as dispersa em direção às suas casas. Eu faço parte do grupo de pessoas que se deslocam por questões de fé. Os problemas começam quando a religiosidade e os bons fluidos cedem lugar às imprecações e lamúrias por conta de um defeito mecânico na condução.

Agora, imaginem essas reclamações sendo feitas num contínuum durante mais de uma hora numa curva de uma estrada estreita e plena de vegetação que foi onde o ônibus resolveu quebrar? É triste, mas foi isso o que aconteceu.

Para evitar maiores transtornos, me fechei no meu silêncio e a partir dele fiz os versos abaixo. São versos irados; mas antes descontar a raiva em uma escrita agônica que numa agressão real. Eis a "obra de arte":


"Ônibus parado ou de pessoas sem compreensão"


A paisagem na janela mudava
mas, agora, já não muda mais.
Ocorreu uma pane qualquer
(dizem que é uma válvula quebrada)
e o povo se desmancha em "ais".

Sabemos que nada pode ser feito,
mas a incompreensão é tal
que se comprazem, os tolos, em julgar mal
os que, lá fora, tentam, sem sucesso,
eliminar o defeito.
Mas qual o problema maior:
o ônibus que não anda,
ou esses lamentos ao meu redor?!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"A máquina do mundo"

Partindo da leitura do episódio da "Máquina do mundo", o último grupo a apresentar os seminários sobre "Os Lusíadas" nas minhas aulas de literatura portuguesa, buscou traçar um paralelo com o poema drummondiano que carrega o mesmo título.

Uma das coisas que eu pude observar (e que certamente não é nenhuma grande novidade, mas tem lá sua parte de razão) é que o homem renascentista tem a revelação dos mistérios desse nosso mundo como sinal claro de que está atingindo o máximo de sua trajetória, como um prêmio último (e merecido) pelos seus esforços. Mas Drummond (e nós todos, homens pós-modernos) renegamos esse saber.

O motivo é simples: nós estamos hoje colhendo o fruto (não muito doce, sem ser de todo amargo) que foi gestado nos infinitos giros desse maquinismo que é tão preciso quanto um relógio suíço. Sua exatidão é tanta que ele até mesmo nos cobra a responsabilidade pelos nossos atos ambiciosos. E o preço é alto.

Créditos da imagem: A Máquina do Mundo, in Margarita Philosophica de Gregório Reisch (1508). Fonte aqui: http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=37&pag=1